QUARESMA, A CORAGEM DA CONVERSÃO

Caríssimos: que Jesus guarde os meus filhos e filhas paroquianos!

A quaresma como exercício espiritual bimilenar na tradição da vivência litúrgica é a experiência do tempo favorável em que nossa consciência cristã consagrando a preparação para a Páscoa do Senhor examina, reflete e procura distorcer os descompassos que serviram para ferir a alma, qualificando com riquezas da sabedoria a insubstituível existência da vida na busca de rumos novos da própria identidade e dos valores pessoais.

A voz da Igreja, desde a quarta-feira de cinzas, ecoa como um forte grito: “convertei-vos e crede no Evangelho”. Esse eco vibra no mais íntimo de todo homem e o faz voltar-se para dentro de si para perceber tantos estrabismos do coração e uma vida totalmente opaca visto a valorização fantasmagórica da efemeridade.

Por isso a quaresma nos traz entre tantos gestos simbólicos profundos, como jejum, esmola, oração, conforme a boca do profeta Joel: vestir-se de “sacos grosseiros e ásperos, cobrir a cabeça com cinzas, ou nela se sentar”, um dos mais sublimes gestos: bater no peito. Bater no peito é convite de uma intensa conversão que provoca o coração humano – local do âmago da pessoa – a se abrir a radicais mudanças. Bater no peito é sinal que à luz divina acende a competência dentro de nós para uma verdadeira conversão. É nessa luz que somos iluminados na consciência, núcleo secretíssimo do ser humano, para a necessidade inadiável de uma revisão, de uma mudança interior para o exterior. Bater no peito, à luz da verdade, nos faz saudavelmente ser convictos e reconhecer, humildemente que trazemos um valioso tesouro carregado em vaso de barro, que temos as próprias limitações e com a força de restauração podemos entrar nos compassos do processo frutuoso de auto requalificação.

Quando o coração humano não entra na competência de uma revisão interior por estar contaminado pela soberba submerge-se nos fracassos irreparáveis, no descuido da oportunidade de exercitar na indispensável tarefa de reconhecer os próprios limites e agarra-se a critérios que produzem juízos equivocados. Perde valores incalculáveis por priorizar a incompetência humanístico-existencial na diversidade dos ambientes e retarda o processo de conversão por posturas enrijecidas que leva a crueldade dos preconceitos, ódios e indiferenças. A pessoa alimenta-se de um vazio baseado na fraqueza da mediocridade e se prisma no horizonte do nada. Outrora, por uma consciência relaxista desprovida de clarividência, comporta-se com certa permissividade e corusca no exterior o interior egoístico que busca defender-se com atos espúrios de uma mesquinhez e revela inestimavelmente a impossibilidade de reconciliação e a insensibilidade de reconhecer o outro como semelhante, como irmão e que somos todos cinzas, conforme liturgia penitencial, nada além de pó e que a esse pó voltaremos.

Quaresma é tempo de revitalização espiritual por ser tempo da delicadeza de Deus com o pecador. Tempo de vencer o desafio da prepotência que gera a ilusória posse da verdade na hegemonia das idolatrias do ter, do poder e do prazer. Aproveitemos esse tempo de conversão para reconciliar com Deus, de acolher o caminho de volta pra Ele. Esse tempo favorável é oportunidade ímpar de refletir o que tem deteriorado nossa vida e nossas relações na desorientação e delinquência que afeta a sacralidade de nosso ser.

Que nessa quaresma, ecoando na intimidade o convite: “reconciliai-vos com Deus”, para assegurar mudanças pessoais possamos abrir-nos a ação do Espírito Santo nesse processo de conversão, de reconhecimento de nossa condição limitada e pecadora e batendo em nosso peito como sinal existencial-penitencial corrijamos nossas ações, fixemos nosso olhar naquele que é o único que pode restabelecer-nos na graça por meio de seu caminho redentor de paixão, morte e ressurreição. Batamos no peito corajosamente como cristãos que desejam evoluir com a consciência iluminada pela verdade do Evangelho e pela alegria de sair da própria prisão existencial para fazer-se colaborador do amor e da verdade, arquitetando uma era nova, a do próprio Deus!

Com todo afeto, abençoa-vos, vosso Padre,
Padre Efferson Andrade

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