O TECER DO TEMPO NO NOVO QUE COMEÇA

Caríssimos: que Jesus guarde os meus filhos e filhas paroquianos!

A transição de um ano para o outro sempre repercute com fomentações folclóricas que retrata o fim do mundo. Os descompassos da vida cotidiana de cada cidadão fazem aflorar no coração o desejo, a prece e o sonho de um ano verdadeiramente novo. Basta perceber a interpretação do calendário maia como provocou grande repercussão pelo mundo afora. A filosofia e a antropologia quando interpelam o saber sobre o tempo apresenta riquezas das inúmeras abordagens que resultam em qualificar a realidade fugaz do tempo como uma complexidade que não se explica e não se entende por um conceito apenas, mas a consistência do tempo no existencial humano porque este imprime na vida e na história o desabrochar para a eternidade. Para os poetas e músicos, na música “resposta ao tempo” de Aldir Blanc e interpretada pela voz inigualável de Nana Caymmi, o tempo “no fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer” onde desvela-se em variados ciclos pelo ser humano que nasce, desenvolve e morre e o tempo é o infinito, em eterno processo de maturação de aprendizagem. Ele se corrói com inveja do ser porque simplesmente ele resgata a memória dos outros mas não tem uma memória própria como sua. Para os que têm fé no Verbo Encarnado, Jesus Cristo, o horizonte da eternidade não aprisiona no tempo cronológico, ou seja, de um tempo cujo relógio aponta, incontestavelmente, para um fim, mas vive a certeza definitiva da fugacidade do tempo de um determinado ciclo para adentrar ao eterno.

Mas qual ser humano que não fica perplexo a ponto de impactar a sua vida a fugacidade do tempo? Diante das múltiplas tarefas da vida humana na contemporaneidade a certeza é simples: o tempo corre veloz e nada tem força para deter a voracidade do tempo, que passa inexoravelmente. O tempo traz a memória “o vento num dia azul de verão” como um cenário paradisíaco por recordações agradáveis mas também, ao passar ele traz folhas secas que quebram, na experiência invernal, todo vislumbre.
A passagem de um ano para o outro só revela a finalizada contagem de 365 dias e o novo ano começará sob os presságios de fogos, festas com danças, comidas e bebidas entrecruzando votos, sonhos, desejos de que o ano novo seja marcado pela paz, por inspirações novas e por muitas conquistas e realizações na nova recontagem do tempo em dias.

Mas não é só o tempo que passa em segundos, dias e anos, a vida de todos, das famílias, das instituições, de cada um tem seu tempo e é feita de ciclos. Precisamos compreender sapiencialmente cada ciclo, sobretudo no discernimento da transição dos ciclos que determina a necessidade precisa de abrir e fechar as etapas vitais. Quem não vive essa experiência cai no diagnóstico triste, fatídico e desastroso porque traz prejuízos incontáveis, muitos até irreversíveis. Esse descompasso produz fim de amizades, de harmonia, de honestidades, de tudo o que precisaria estar recomeçando para garantir fecundidade. O tecer da história humana em todo o seu ciclo só consiste verdadeiramente quando nossos anseios podem se tornar realidade, na medida em que profundas conversões incidirem na interioridade humana, qualificando escolhas e opções, a conduta social e o relacionamento com a natureza.

O novo de um ano novo que começa é a grande possibilidade de voltar-se para o próprio coração efetivando a determinação de uma intervenção mais revolucionária com novas atitudes, amadurecimento espiritual, social e a competência para reinventar projetos, programas e ações que tirem o coração humano de sua preocupante situação. Neste ano novo, o novo propósito de tirar superstições e magias sedimentadas no estrabismo da falta de solidariedade para ter uma visão mais adequada da realidade social e política, intervindo com a força do coração onde é preciso mudar com urgência. Ainda é tempo, neste ano novo, ter uma nova consciência que banhe em valores éticos e morais, conceitos e perspectivas que permitam a contemporaneidade do tempo atual e não dos velhos tempos que não voltam mais. O novo intrinsicamente não é viver os algozes do passado, sobretudo de seus colapsos e de suas consequências catastróficas em nós, e sim uma transição radical no ciclo existencial de nossa história. O novo é a oportunidade singular para viver a coragem de despojar dos excessos, dos ódios que insistimos em velar, dos mortos que não permitimos que fossem sepultados. O novo se traduz na leveza de guardar pra nunca mais ser aberto tudo aquilo que do passado não valeu a pena mas insiste em ficar vivo no presente. O novo que desveste o coração humano de toda pretensão e o ilumina pelos valores do Evangelho de Jesus Cristo, enriquece o ciclo no valor do tempo com ética, moral, inesgotável e insubstituível e garantem a referência para fecundar o tempo no qual se tem a graça de estar vivendo.

Que o tempo cronológico da virada de ano em seus augúrios seja uma marca não por simples modificações, como é inevitável no tempo que passa, mas também por amplas transformações que desafiam a humanidade e suas sociedades num discernimento particular dos sinais dos tempos sem sombrear o horizonte do novo ano. Que o novo inspire, à luz de princípios morais e valores éticos, a investir na conversão do próprio coração para alcançar pela fé a fecundidade da essência do nosso ser que nos sustenta, no desafio da mudança de época, a conduta da própria vida.
Seja este o compromisso de todos nos votos de um abençoado Ano Novo.

Com todo o afeto, um Feliz e Santo Natal e Ano Novo!
Abençoa-vos vosso padre, Pe. Efferson Andrade

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